Outro naufrágio

O que pode sair mal?

Meter-se numa jaula enferrujada dum velho barco comandado por desconhecidos poucos fiáveis, com a intenção de fotografar tubarões para que o teu ex-namorado não pense que és chata; pode não parecer uma boa ideia. Mas é que 47 Meters Down é dessas histórias sustentadas na estupidez dos personagens.
Neste senso, não demora em mostrar as suas cartas: tudo é supérfluo para lá dos animais. Antes da sua aparição, Lisa (Mandy Moore) e Kate (Claire Holt) são duas irmãs de férias em México. Lisa está triste pela sua recente ruptura amorosa devido a sua chatice (literal). Por isto, Kate; num dos desencadeantes mais embaraçosos dos últimos tempos, convence-a para fazer coisas divertidas, do género de engatar com nativos (Yani Gellman e Santiago Segura) ou fotografar tubarões.

Lisa e Kate com grandes esperanças nas suas férias.

Nada no barco conduzido por Matthew Modine inspira confiança; nem a tripulação, nem a ruidosa roldana. Mas sabemos que Lisa e Kate entrarão de todos modos na jaula porque se não, o filme não duraria os seus 87 minutos. Assim que esperamos com paciência o mergulho.

O primeiro aviso.

E a história melhora de maneira provisória. Não deixam de acontecer coisas ruins às irmãs: quebra a roldana, descem ao fundo do mar, perdem a comunicação com o barco, têm oxigénio limitado e das suas pequenas feridas, emana sangue que atrai um cardume de tubarões-brancos. Este desenvolvimento consegue gerar certo suspense e que nos preocupemos genuinamente pela supervivência das irmãs. Mas não era difícil: são duas meninas isoladas a 47 metros de profundidade, mancadas e rodeadas de esqualos.

O segundo acto consegue gerar certa angústia.

Infelizmente, a história não é plausível em momento algum. O comportamento de Kate é, no mínimo, temerário. Existem ocasiões onde os tubarões se tomam a caça com calma. Entre tanta subida e descida da jaula e das meninas, é inevitável perguntar-se como é que a pressão subaquática não as matou antes do que os próprios tubarões… Tudo é coroado com um plot twist que se vê chegar desde várias léguas de profundidade; graças a essa norma segundo a qual, a presença decorativa duma espingarda na parede, implica que essa espingarda vai ser disparada nalguma altura.

Entre o pouco favorável, a fotografia.

A favor de 47 Meters Down, dizer que tem certo gosto na imagem, uma certa beleza. A dosificação dos jumps scares acrescenta certa tensão à trama. Contudo, fica por baixo de outras produções semelhantes como a minimalista Open Water, ou uma interessante The Shallows, a qual compensa o desastroso CGI do tubarão com um verdadeiro drama emocional e uma brilhante interpretação de Blake Lively.
O subgénero não dá para mais. Há tubarões com fome e gente a fugir deles. Teria sido de agradecer que Johannes Roberts, futuro responsável de The Strangers 2, houvesse acrescentado alguma dimensão a essa gente.

  • O melhor: o início do segundo acto com o incidente da roldana.
  • O pior: personagens planos.
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