O monstro sempre decepciona

Era melhor ir para Las Vegas.

The Ritual é o debute em solitário do realizador norte-americano David Bruckner, onde alterna coisas interessantes com outras que não são assim tanto.
Anteriormente dirigiu segmentos em filmes de antologia, alguns deles resenháveis. Foi responsável pela história “Amateur Night” em V/H/S ou de “The Accident” em Southbound. Nesta produção britânica, Bruckner leva a tela o romance homónimo de Adam Nevill adaptado por Joe Barton. O resultado é aceitável.

O drama inicial ajuda a assumir uma história bastante típica.

Os grandes acertos de The Ritual são a sua proposta e como ela é apresentada. Encontramos no início um grupo de amigos que estão nessa idade de rememorar as anedotas que protagonizaram apenas uns anos antes. A ante-sala da maturidade, ou a maturidade ainda mal assumida; tanto faz. O importante é que reconhecemos a cada um dos personagens e isto ajuda a introduzir-nos numa história do género “férias de pesadelo”. Porque é disso que se trata. Discutem qual vai ser a viagem que os levará de volta a sua juventude recentemente perdida. Mas antes de que possam tomar uma decisão, um deles morre num trágico incidente do que Luke (Rafe Spall) se sente responsável.
Impõe-se a opção do defunto, e a viagem ao meio do nada escandinavo vira numa homenagem póstuma ao amigo falecido. Uma inoportuna torcedura de joelho e os imprevistos do clima nórdico fazem com que o grupo decida atalhar por uma floresta. E já se sabe que quem troca caminhos por atalhos, não lhe faltam trabalhos.

É quando a ameaça se faz externa que a coisa perde interesse.

Aqui, a história evita a bobagem xenófoba tão habitual nestas produções. A floresta apresenta, sim, signos inquietantes que remetem a um universo pagão do tipo Blair Witch Project ou Kill List. Mas mantém-se numa ambiguidade onde é difícil dizer se o antagonista se encontra entre as árvores ou dentro do crânio dos membros do grupo. E é um pouco de ambos. The Ritual mostra que a luta entre Luke e a “coisa” da floresta é paralela à sua briga com a culpa pela morte do amigo e, aliás, contra o resto dos amigos que, em segredo, também o responsabilizam por esse facto.

Bah, podia ser pior.

Até aqui tudo bem. O problema é que chegamos a um ponto no que a história perde interesse. Este ponto chave coincide com a corporização da ameaça. E não é que esse paquiderme humanóide não seja sinistro, é que batemos com essa regra de ouro segundo a qual, o monstro sempre decepciona. Qualquer imagem do mal sugerida, composta pelos nossos próprios medos, é muito pior que qualquer coisa que se possa apresentar na tela. E em The Ritual, não há excepção.
Contudo, seria injusto não destacar o interesse da proposta, a ambientação e umas actuações plausíveis. Sem destacar, The Ritual acha-se por cima da média de 2017.

  • A favor: Primeiro acto e interpretações.
  • Em contra: Desenlace.
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