Mulheres em perigo

Mulheres brutalizadas por um travesti e um deficiente. Ghostland era isto.

Primeiro grande baque do ano a causa das expectativas por volta do nome de Pascal Laugier.
Associado no seu momento ao novo extremismo francês, surpreendeu todo o mundo com a cruel e obscura Martyrs (2008). Aquela produção que polarizou público e crítica na altura, constitui um dos melhores filmes de terror dos últimos anos e uma original mistura de violência e reflexão filosófica existencial. Infelizmente, Laugier não conseguiu manter o nível com o seu seguinte trabalho, The Tall Man (2012). Se a ambientação inicial desta história, numa vila destruída pela crise económica, pode provocar algum tipo de esperança sobre o que estamos a ver; rapidamente esvaece num thriller pouco interessante que reserva uma mensagem final entre fascista e neo-liberal.

A ambientação e o tom é do pouco salvável aqui.

Com o seu actual Ghostland, Laugier confirma-se na asa direita do cinema de terror junto de outros nomes como Rob Zombie ou o infame Eli Roth. Precisamente, Ghostland homenageia de modo explícito Zombie; e também Lovecraft, embora não se saiba bem o porquê, pois o filme não é nada lovecraftiano.
Rápido observamos que o guião não vai ser um dos elementos destacáveis de Ghostland, mas desculpamos os absurdos diálogos porque a história da viagem das duas irmãs com a sua mãe à mansão sinistra e claustrofóbica ainda tem algo de envolvente. Paciência.

Chega supostamente o terror, e nem terror, nem nada.

O incidente traumático (o assalto duns maníacos à família) já mostra claramente quais vão ser os truques ardilosos da realização: subidas súbitas do volume e uns movimentos de câmara frenéticos, como se os técnicos rodassem em pleno ataque epiléptico. Ignoro se é isso do que as gerações jovens gostam, mas eu ainda sou dos que prefiro saber o que acontece na tela.

Mulheres reduzidas a bonecas por nenhum motivo. Se existe feminismo é por coisas como esta.

E então entramos de cheio na história… era melhor que não. O argumento alterna dois planos, um ligado à irmã racional e prosaica (Anastasia Phillips e Taylor Hickson) , e outra à fantasiosa e gótica (Crystal Reed e Emilia Jones). Nada funciona demasiado e tudo é um bocado inacreditável. A viragem que introduz no equador da narração não arranja coisa alguma. Ghostland acaba por ser um simples exercício de sadismo contra as protagonistas sem direcção ou motivo plausível. E se alguém quiser cometer o erro de assistir esta bodeguice, será preciso não desvelar mais do enredo; já que o único argumento que se esgrime aqui é uma suposta surpresa que nem é assim para tanto.
«Misógino, transfóbico e persistentemente mesquinho, Ghostland é um olhar desgastante e pouco gratificador», assim opina o crítico James Marsh e eu subscrevo cada palavra. É preciso fazer menção das graves lesões produzidas no rosto da actriz Taylor Hickson por ter descuidado a produção algo tão fundamental como a segurança no trabalho. Ainda por cima.

  • A favor: As interpretações femininas. Especialmente a pobre Taylor Hikson.
  • Em contra: A absoluta falta de orientação da história e de profundidade motivacional dos personagens. Por não falar da irresponsabilidade da direcção e da produção no trato com as trabalhadoras.
This entry was posted in Crítica and tagged , . Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*