«Despede-te de Michael e supera-o»

Spoiler? Se aparece no trailer!

Este é o conselho que dá Allyson (Andi Matichak) para a sua avó Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) no primeiro acto do novo Halloween dirigido por David Gordon Green e que chegará à tela em dia 26 deste mês.
Toda a gente deveria seguir o conselho da neta de Laurie na única linha de diálogo sensata que tem, porque passear pelas ruas de Haddonfield na noite de defuntos através de lentos planos-sequência subjectivos, já não provoca a alerta de há 40 anos; quando sabíamos que uma ameaça imprecisa irrompia num cenário vulgarmente familiar. O perigo está ao lado de casa, num subúrbio qualquer, como aquele onde mora qualquer espectador ou, no mínimo, qualquer espectador norte-americano. Agora o quotidiano é a própria ameaça, reiterativa e sem mistério. Michael Myers é quase a única personagem com a que simpatizar nesta sequência povoada por adolescentes estúpidos, polícia ineficaz, uma pobre imitação do doutor Loomis (o doutor Sartain interpretado por Haluk Bilginer) e uma Jamie Lee Curtis longe do seu melhor momento, transmutada numa Sarah Connor da terceira idade e com uma filha insubstancial e narrativamente prescindível (Judy Greer).

Morram já.

E não é que o Halloween de 2018 seja inferior à maioria das sequências da saga, sobre as que já falamos aqui. Trata-se de que a operação de suprimir estas partindo do filme original, envolver John Carpenter e convocar de novo Jamie Lee Curtis; dá para gerar umas expectativas que, de modo objectivo, esta entrega não satisfaz. A começar por uma introdução que estabelece adequadamente o tom, mas que foi já desvendada quase na sua totalidade no trailer, mais uma vez a sintetizar de maneira irresponsável o melhor do produto publicitado. A chegada de Myers a Haddonfield e a sua procura duma arma, consegue também remeter-nos à origem da história ou à, para nós, legítima sequência realizada por Rick Rosenthal em 1981. Infelizmente, as vítimas efectivas e potenciais carecem da naturalidade e o charme que tinham as personagens perfiladas pela recentemente falecida Debra Hill.

Laurie Strode carece já da vulnerabilidade que fazia com que nos preocupássemos com ela.

O resto funciona apenas como homenagem para os fãs, merecida depois de pagar o passe: a trilha sonora invariável de Carpenter, a repetição de frases célebres, comentários subtis sobre as sequências anteriores e outros “ovos de Páscoa”. Há até uma inversão de roles entre protagonista e antagonista que resultaria ridícula de não ser por uma comicidade geral assumida na fita, como parte duma série de brincadeiras entre realizador e fãs que estes últimos agradecem. Eu não, no mínimo. Porque o Halloween de 1978, para além dalguma cena concreta, não era uma história cómica. Era angustiosa, mesmo trágica.

Mmmm… onde vimos isto antes?

Em definitiva, este Halloween é como uma reunião de antigos alunos, onde podes ver os rostos sorridentes e familiares de velhos colegas. Mas agora são carecas, obesos, melancólicos, estão divorciados e carecem de sonhos.

  • A favor: uma clara intenção de homenagem ao filme original e aos seus fãs.
  • Em contra: não acrescenta nada ao universo da história e não corrige a saga.
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