Francesiada sardônica

Uma festa que se escapa das mãos por uma sangria adulterada: quem não esteve numa?

Ganhador da quinzena de realizadores de Cannes, prémio a melhor filme de Sitges 2018 e Melies de Ouro da Federação de Festivais de Cinema Fantástico: Climax será provavelmente o filme do ano, também para este site.
No vídeo de agradecimento na entrega deste último galardão em Sitges, Gaspar Noé mostrou a sua surpresa porque Climax fosse o escolhido. De algum modo, parece que o guião apenas contava com 5 páginas e foi desenvolvido durante 15 dias com o apoio na improvisação duns actores inexperientes (excepção notável de Sofia Boutella). Para o realizador franco-argentino, o verdadeiro merecedor desse reconhecimento deveria ter sido o seu admirado Lars von Trier, com o polémico The House That Jack Built. Para finalizar, Noé decidiu celebrar na mesma aplicando o contido dum colírio sobre a sua córnea. É preciso ver Climax para perceber a piada.

O que é preciso para mostrar as coisas como elas são.

Sem conhecermos ainda os méritos de Trier, o de Gaspar Noé é um claro exercício de modéstia, esquisito num realizador que se tem inclinado de modo decidido por uma extravagância estilística inimiga de epilépticos e uma transgressão narrativa contra-indicada para apreensivos (Seul Contre Tous, Irreversible ou Enter the Void). De facto, com Climax, a carreira do gaulês recupera-se desse pequeno tropeço que supôs o insosso Love (2015); pecado venial que mal se pode ter em consideração a quem fez uma marca própria em base de iluminação saturada, planos impossíveis, citações niilistas impressas directamente na tela, e grandes doses de provocação.

Em determinada altura, esvaece a possibilidade da comunicação.

A vocação autoral do filme deixa-se clara de início: nas prateleiras que circundam um aparelho de televisão que emite o casting dos dançarinos a participar na obra estão amontoadas, não por acaso, as fitas VHS de Possession, Salò o le 120 giornate di Sodoma, Un Chien Andalou, Harakiri, Suspiria, Zombie, Schizophrenia, Eraserhead… Também livros de Nietzsche, Cioran, Fritz Lang, etc. Todos são componentes desta loucura colectiva pronta para estourar e que começa como uma celebração boba e ingénua da França multirracial e diversa.

A dissolução moral atinge mesmo os laços familiares.

A mediados da década de 1990, e presidida por uma tricolore gigante, um grupo de espertos bailarinos concluem numa sala dum isolado prédio uma última e espectacular encenação duma coreografia que se deve estrear nos Estados Unidos com posterioridade. Os membros da obra decidem comemorar com uma festa a conclusão dos ensaios. Todos mostram-se gentis uns com os outros, dançam, bebem e conversam. Ocultos após um verniz de correcção convencional, e já nas conversas em pequenos grupos de afinidade, insinuam-se todos os preconceitos nacionais, racistas, homofóbicos e sexistas. Uma sangria adulterada será o veículo catártico que fará emergir estas pulsões inconfessáveis no quadro dos mitos da França moderna.

Preparem o estômago.

Cientes da sua imprevista alteração de consciência, incitados pela paranóia, e indefesos psicologicamente pela ingestão da droga; os colegas atrapalham numa rede de suspeitas e acusações assistindo à dissolução das ligações comunitárias numa espiral de sexo e violência que enche o vazio da impossibilidade da comunicação. Tudo acaba por desenhar uma perspectiva trágica do ser humano desde um ponto de vista existencial, mas também colectivo.
Noé passeia-nos a bordo de intermináveis planos-sequência que remetem à Victoria (2015) de Sebastian Schipper; por este prédio isolado na neve do que, como os burgueses em El Ángel Exterminador, não pode fugir o nosso elenco. Um elenco mais ou menos solvente na hora de exprimir o desconcerto da situação; particularmente Sofia Boutella, quem tem momentos a emular a possessa Isabelle Adjani do filme de Zulawski por corredores cromaticamente avermelhados como os da academia Tanz de Argento. E do argentiniano passa-se aos planos impossíveis dum Trier no Forbrydelsens element, quando o contexto dos nossos personagens está irremediavelmente de pés para acima.
Todos estes ingredientes fazem de Climax um recomendável espectáculo visual e sonoro ao serviço duma piada sarcástica sobre a sociedade do Hexágono.

  • A favor: Noé volve ser Noé.
  • Em contra: Alguma interpretação concreta. Agradeceria-se também que o descenso na loucura fosse algo mais gradual.
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