Uma melodia inquietante

Sem identidade e sem voz, papel para Najwa Nimri.

Num cartaz promocional de Quién te cantará, situavam este filme entre Almodóvar e De Palma. Mesmo a ser possível rastejar certos elementos característicos dalgumas obras do primeiro nesta terceira longa-metragem de Carlos Vermut, achamos que está ligada fundamentalmente ao segundo.
Vinha antecedida, de facto, pelos inquietantes Diamond Flash (2011) e Magical Girl (2014); precedentes que outorgam um interesse prévio a qualquer futuro trabalho do realizador. Como nelas, em Quién te cantará há um especial cuidado nos planos, uma particular subtileza comunicativa nas imagens. Também destaca o emprego duns diálogos directos e cortantes que se por uma parte restam verosimilhança às situações que se propõem, contribuem por outro lado na geração dum clima impreciso de intimidação. Como nos projectos precedentes, nesta história paira o presságio duma vaga tragédia, tanto no desfecho como na misteriosa backstory; desconhecida pelo público e pela própria protagonista depois do filme iniciar com a amnésia desta última.
E precisamente que a protagonista Lila seja interpretada pela sussurrante Najwa Nimri, uma actriz com um registo não demasiado amplo, podia suscitar alguma reticência. Felizmente, não destoa neste elenco onde brilham Carme Elias e especialmente Eva Llorach.

Violeta (Llorach) destaca como contraponto do sucesso de Lila.

Em Quien te cantará assistimos à perda de memória de Lila, estrela da música pop há duas décadas retirada; quem preparava uma volta aos cenários antes do acidente. Incapaz de cantar e tendo como única referência da sua identidade a sua amiga Blanca (Elias), decidem contar com a ajuda de Violeta (Llorach), uma trabalhadora dum karaoke e fã da cantante, para que Lila volva ser quem foi; como seguindo os patrões de dobramentos numa folha na espera de reproduzir uma figura papirofléxica.

Apesar de Violeta mostrar a Lila quem foi, esta não se reconhece.

Entre elas estabelece-se porém um jogo identitário uma vez que Lila não se reconhece na imagem de si que lhe devolvem as imitações de Violeta ou as recordações de glórias passadas que decoram as paredes da sua casa. Esta alienação tem a ver, naturalmente, com a trajectória vital da intérprete antes da sua amnésia, o que faz esta perseguição de si própria, habilmente filmada, uma travessia difícil. Pela sua parte, Violeta deve ocultar a relação com Lila à sua filha Marta (Natalia de Molina), uma jovem superficial que a tiraniza. Esta última trama secundária é quiçá um dos pontos fracos do filme. Marta é uma personagem estereotipada e pouco profunda, o que faz que a problemática relação com a mãe perca força emotiva. De facto, por vezes fica a sensação de que filme não desenvolve todo o seu potencial dramático.

O papel de Blanca (Carme Elias) formula dúvidas que não são inteiramente resolvidas.

Contudo estamos diante dum lúcido comentário sobre a inautenticidade da fama e a atracção que esta exerce, envolvida num decente thriller psicológico com uma macabra resolução que impacta.

  • A favor: a realização e a soberba interpretação de Eva Llorach.
  • Em contra: a personagem de Marta e elementos da trama não inteiramente desenvolvidos.
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