Não é um outro “It Follows”

Los Angeles é um lugar surreal, feio e sem alma.

Se procurarem bem, já podem assistir o novo filme de David Robert Mitchell, realizador promissório por algum ilustre trabalho precedente.
Concretamente, o realizador de Mitchigan ocupou-se da direcção e o guião de três longa-metragens de impacto desigual. A primeira foi The Myth of the American Sleepover, o qual pode ser definido como um chato e interminável episódio de Dawson’s Creek; com os seus (falsos) adolescentes em plena transição à vida adulta a empregar uma admirável eloquência sobre as suas angústias banais. Bah.

Sam (Garfield) nunca chega a ser suficientemente divertido.

O segundo filme é que foi a bomba. Mais compreendido pela crítica que pelo público, It Follows supôs uma revisão moderna do cinema de terror dos anos 80 que remete no estilo a John Carpenter. Temos aqui também um coming-of-age, mas num entorno suburbano hostil e grisalho (o Detroit dos nossos dias). Sem excessivas expectativas de futuro, com uns adultos virtualmente ausentes, a malta capitaneada pela charmosa Maika Monroe deve fazer frente sozinha a uma entidade fantasmagórica de transmissão sexual no que é uma das grandes obras de terror da presente década.
A simplicidade da história de It Follows contrasta de forma radical com a disparatada complexidade de Under the Silver Lake, que agora chega. De facto, convém não esperar demasiado do primeiro neste último. Estamos face um filme totalmente diferente, até no género. Under the Silver Lake introduz-se-nos como uma comédia absurda nos primeiros minutos, para deslizar-se pouco a pouco cara um enredo de detective amador. Sam (Andrew Garfield) está já na terceira década de existência a morar no bairro de Silver Lake, em Los Angeles, perto de Hollywood. Sem incentivos vitais, dedica-se a copular com uma moça e a espiar os vizinhos com uns prismáticos desde o seu diminuto apartamento, sobre o que pesa uma ordem de despejo. Em certa ocasião, descobre uma loira interessante, Sarah (Riley Keough); com que tem algo parecido a uma cita. Combinam para encontrar-se novamente, mas ela e todo o seu mobiliário desaparecem sem deixar rasto. Na posse duma fotografia e perseguindo todo tipo de personagens extravagantes, Sam inicia uma pesquisa que revela uma extraordinária conspiração.

Keough desprega certo charme.

Houve quem comparou afortunadamente Under the Silver Lake com o enredo de Like a Velvet Glove Cast in Iron, a fascinante novela gráfica de Daniel Clowes. Aqui também o protagonista procura uma mulher por motivos pouco sólidos e é sacudido dum lado para outro por um universo que mal percebe. Sam passeia a sua confusão por um Los Angeles feio e superficial, e partilhamos rapidamente com ele o desconcerto; e quiçá seja um dos poucos elementos para sentir empatia por ele, já que estamos face um protagonista caracterizado de maneira tosca e incoerente.

Não apenas se adopta um estilo clássico, como todo o filme está cheio de referências.

De resto, estamos diante dum monumental non-sequitur onde aparecem coisas como um esquio suicida, um assassino de cães, um misterioso senhor disfarçado de pirata, uma moça-coruja homicida, um grupo de música chamado “Jesus & the Vampire Brides”, umas pequeno-burguesas bonitas e distantes, o rei dos mendigos, um estranho culto, milionários que esvaecem, mensagens subliminais por toda a parte… David Robert Mitchell abre mil portas que não se toma demasiadas moléstias em fechar, assim que é difícil recriminar-lhe algo provavelmente propositado. Muitas destas sub-tramas inacabadas estão rodadas com um estilo que vasculha no cinema clássico, no noir ou em certas obras de Lynch. Muitas contêm mensagens relevantes, como o senhor que escreveu todas as canções a alegorizar a indústria musical e a sua capacidade de integrar a rebeldia, a beautiful people a beber e divertir-se sobre as lápides dos grandes artistas de outrora ou a comparação do isolamento social de Sam com o personagem interpretado por Kevin McCarthy em The Invasion of the Body Snatchers. Também é preciso destacar a capacidade de Mitchell para gerar beleza, como nas múltiplas referências a Hitchcock (North by Northwest, Rear Windown), Keough a imitar Marilyn Monroe na piscina (Something’s Got to Give) ou a morte da personagem interpretada por Callie Hernandez a emular uma antiga capa de Playboy.

Um desses momentos pouco afortunados.

No plano negativo, é preciso indicar que este enorme puzzle não funciona em conjunto, e a sua excessiva duração fazem da assistência ao mesmo uma experiência tediosa. Tampouco ajuda um tratamento cómico da história que nunca acaba por fazer graça e que chega a ser pouco afortunado; de modo especial, no desenvolvimento das personagens femininas. Assim que Under the Silver Lake deixa finalmente na plateia uma confusão comparável ao universo surreal que retrata.

  • A favor: é interessante a nível de estilo.
  • Em contra: demasiado longa e com um humor que não funciona.
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