Plano-sequência da morte

Pode parecer, mas não estamos num filme de terror.

Não aparece nas nossas recomendações de 2018, mas poderia. Ou talvez não já que, de facto, é de 2017. Mas foi na passada edição do festival de Sitges que tivemos notícia e os comentários eram sempre positivos.
No início, a boa acolhida de público surpreende. Entramos numa história de zumbis convencional, e até ruim. Não demoramos em ver que estamos nisso do “cinema dentro do cinema”. Uma equipa filma uma história de mortos-vivos num deposito abandonado. O realizador é um tirano, quem quer um êxito nesta nova aposta depois dum fracasso precedente e a custa duns actores atemorizados. Continuamos sem envolver-nos no enredo. Há um humor muito parvo, situações muito inverosimilhantes, personagens pouco desenvolvidas. Em certa altura, a equipa é assaltada por uns zumbis reais. O realizador decide registar tudo como parte do seu filme de ficção, encontrando na situação real o grau de autenticidade ausente no processo de gravação.

O realizador (Yuzuki Akiyama), maldito louco.

A premissa apenas melhora um pouco. Na medida em que tudo é fimado num só plano-sequência até pensamos estar num outro found fotage, mil vezes transitado e aborrecido. As objecções surgem a cada plano. O público mais impaciente abandonará o esforço, e o mais tenaz intentará desfrutar o produto como uma outra entrega no sub-género de infectados, e não necessariamente das piores.

O sangue suja (literalmente) a câmara.

Não desassosseguem, insensatos. Não é um outro capítulo do filone zumbis. Não é a enésima variação da metragem encontrada. É um jogo de matrioshkas, um filme sobre fazer filmes. O equador deste カメラを止めるな! (ou “One cut of the dead”) revela que todas as nossas reticências anteriores têm a sua explicação no próprio processo de rodar com um orçamento limitado, com uns caprichos absurdos por parte da produção, com uns egos interpretativos dificilmente governáveis, mas com um compromisso claro de levar avante o projecto.

Shinichirô Ueda abre a caixa da rodagem e mostra como se ajustam as peças.

É uma apologia da criatividade, da auto-superação; um chamado à indulgência cinematográfica e ao trabalho em equipa. Uma divertida e recomendável comédia que exige, isso sim, um pouco de paciência.

  • A favor: Divertida, original e cinéfila.
  • Em contra: Até não entrarmos plenamente no jogo, na metade do enredo, temos alguma tentação de desistir.
This entry was posted in Crítica and tagged , , , . Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*