Piercing

Em certo sentido, é uma história romântica.

O próximo 1 de Fevereiro poderá assistir-se o novo trabalho de Nicolas Pesce, o qual já foi movido por diversos festivais durante o ano passado.
Nicolas Pesce é o responsável dum dos filmes mais sinistros da última década: The Eyes of My Mother (2016). Bastante incompreendido na altura, albergamos a certeza que os seus méritos serão reconhecidos com tempo. Qualidades entre as que se acham a excelente interpretação de Kika Magalhães, uma história desassossegante e um desenho de produção austero e minimalista. O realizador acometerá este ano o repto de apresentar um remake decente do filme de terror japonês Ju-on: The Grudge. Sorte com isso.

O enredo desenvolve-se… aqui.

Entretanto temos Piercing (2018), que mistura comédia e terror a distanciar-se bastante do trabalho precedente. Em primeiro lugar, o universo de Piercing está realizado com miniaturas que dão a sensação dum decorado artificial. Este elemento desconcerta, mas tem o aspecto positivo de carregar nas costas dos personagens o peso do enredo. O principal é Reed (Christopher Abbott), pai de família e homem de negócios que se despede da sua família por supostos motivos de trabalho. Não demoramos em comprovar como os verdadeiros planos de Reed incluem o assassínio minucioso duma prostituta. A vítima potencial que aparece no quarto de hotel como resposta à chamada do protagonista é Jackie (Mia Wasikowska), especializada em BDSM e com graves transtornos de personalidade. A sua aparição e o seu comportamento errático alteram de modo significativo a agenda de Reed. O mal-entendido entre as pretensões de ambos é o gerador de comicidade numa história bastante ardilosa.

Também há espaço para o fetichismo e o surrealismo.

A trilha sonora é uma reciclagem de velhos temas de Bruno Nicolai, Piero Piccioni, Stelvio Cipriani ou Goblin. Esta inclinação italiana não é por acaso. O desenho de produção é singelo mas vistoso, de fotografia saturada e iluminação não diegética. Fora da ausência dum assassino mascarado ou da estrutura do whodunit (quem matou?), Piercing inspira-se no giallo, o que é estupendo. Particularmente, na sua proposta de thriller sexy, luvas de coiro, objectos pungentes… O trauma que se revela bem passada a metragem remete a alguns dos filmes dos que se extrai a trilha sonora: Tenebrae ou Profondo Rosso. Advertem-se ecos também de filmes como Spider, Audition ou Basic Instint.

Esta mulher não é a vítima indefesa que se imaginam.

Os actores estão a um nível aceitável e só dá para lamentar que Laia Costa, sensacional em Victoria (2015), fosse relegada a uma personagem secundária. Bom entretenimento.

  • A favor: O tandem Abbott-Wasikowska mantém a tensão nos dois últimos actos.
  • Em contra: Alguma incoerência argumental notável.
This entry was posted in Crítica and tagged , , , , , , , . Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*