Estupro simbólico e vingança

A infeliz Katia, de lenço humano.

Já é possível assistir Perfect Skin, thriller psicológico britânico que marca o debute na direcção e no guião de Kevin Chicken.
O enredo envolve a jovem polaca Katia Matuszczak (Natalia Kostrzewa); emigrada em Londres, sem guito e expulsada da moradia por uma compatriota, consegue ser acolhida pela sua amiga Lucy (Jo Woodcock). Ela apresenta-lhe o veterano tatuador Bob (Richard Brake), quem admira a pele virgem da moça eslava e lhe propõe tatua-la, sem êxito. Uma noite na que Katia rouba a renda de Lucy para ir de festa, acede totalmente bêbeda às pretensões de Bob que, claro, tem uma agenda segreda para ela. A desenvolver os primeiros sintomas de Parkinson, o tatuador quer deixar uma última grande obra como legado antes da próxima aposentadoria. E a pálida pele de Katia está destinada a ser o seu involuntário lenço.

Se consegue sobreviver, a moça vai deixar bastante dinheiro em laser.

É de imaginar como prossegue a história: Katia é posta em cativério em quanto o seu captor espeta piercings e desenha todo tipo de filigranas no seu corpo. Todo este processo leva a destruição da identidade da polaca e a uma certa síndrome de Estocolmo, para maior glória da arte de Bob quem, paralelamente, leva uma vida comum cidadão respeitável e preocupado pai divorciado. Lucy simplesmente pensa que a sua amiga roubou o dinheiro e fugiu com ele. A polícia… bem, no filme, os bófias de Londres parecem os menos profissionais do planeta.

Richard Brake é tão educado, que mesmo com este aspecto não acorda suspeitas.

Alguma resenha crítica destacou que Perfect Skin é uma espécie de rape & revenge sem rape. No mínimo, sem estupro físico, mas com o estupro simbólico das agulhas na pele da vítima. Guarda algum paralelismo com outros filmes de mulheres em clausura, como Pet (2016). Para além do orçamento, a distância com esta reside no guião: Perfect Skin está escrita de maneira catastrófica, e assim é muito pouco provável fazer algo de proveito. Mencionamos o papel de espectador que se reserva à polícia e poderíamos alargar o alvo à própria protagonista, pela qual é impossível sentir um mínimo de simpatia que nos permita querer acompanha-la nas suas desventuras. Pode-se dizer o mesmo dos secundários, especialmente de Lucy, personagem que provoca uma mistura de embaraço e hilaridade. Este problema é agravado por presunçosas cenas em câmara lenta ou planos de recheio com estética de video-clip.

E graças a ele…

O aspecto positivo é, com certeza, o antagonista. Richard Brake encarna com solvência o gentleman sociopata com dupla vida, e seria de agradecer que o texto que serve de esqueleto ao enredo lhe tivesse oferecido uma profundidade maior. Alguma boa ideia isolada num claro intento falido por impressionar-nos.

  • A favor: A interpretação de Richard Brake.
  • Em contra: O guião.
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