Desamor espacial

Em grande parte, o filme vai disto.

Em 2148, o capitalismo faliu depois de explorar todos os recursos da terra. Impõe-se o socialismo para salvar a humanidade. A URSS renasce. Não era sem tempo.
Este é o fenomenal ponto de partida do filme sérvio Ederlezi Rising (2018) que, não obstante, mal desenvolve esta agradável fantasia política. Apenas é o cenário para que uma engenheira social encarregue uma missão ao cosmonauta jugoslavo Milutin (Sebastian Cavazza), para estabelecer uma colónia em Alpha Centauri e espalhar o bolchevismo por lá. O problema para o veterano Milutin, arquétipo do anti-herói incrédulo, misantropo e misógino; é que deve partilhar a viagem com a atractiva andróide (ou ginóide) Nimani (Stoya); quem tem um software que a submete às directrizes do piloto e um sistema operativo que lhe permite aprender com novas experiências.

Há uma surpresa para Milutin.

Por muito trabalhador ao serviço do socialismo que seja Milutin, não demora nem dois minutos em programar a sua parceira para dar quecas. Homens a fazer de homens. O cosmonauta satisfaz as suas fantasias sexuais com Nimani duma maneira que revela aspectos não demasiado agradáveis da sua personalidade. Contudo, Nimani apenas responde às directrizes programadas por ele, pelo que fica chateado pela sua inautenticidade. Tudo muda quando Nimani mostra reacções genuínas na sua interacção com Milutin, fruto do seu sistema operativo inteligente. É assim que o jugoslavo vai perfilando o propósito de “libertar” a sua parceira do software que a subjuga a ele, mesmo pondo em risco toda a missão. Por outro lado, este intento de humanizar Nemani, talvez não seja a boa ideia que Milutin imaginava.

Para isto é que os cosmonautas querem andróides.

Este é o enredo escrito por Dimitrije Vojnov em base a um relato de Zoran Neskovic, dirigido por Lazar Bodrosa com acertos e desacertos. Ederlezi Rising é estilística e tematicamente devedora de clássicos da ficção científica como 2001: A Space Odyssey, Blade Runner ou Solaris. Na ambiguidade das emoções de Nemani há reminiscências de outros filmes com tratamentos semelhantes, como AI ou Her. É preciso destacar a fotografia, que se desmembra em imagens formosas do espaço nem sempre com um propósito narrativo legítimo.

Homenagens não demasiado subtis.

O aspecto negativo é que o filme alude a temáticas comuns, mas de forma vaga: a liberdade ou a essência do humano nos seus aspectos existenciais, mal se perfilam e tudo acaba por ser uma representação alegórica e sombria das relações emocionais, que já podia ser mais erótica do que resulta ser. É assim que Ederlezi Rising vira num drama romântico no seu terceiro acto, ao qual demoramos em chegar por uma tendência um bocadinho irritante em prolongar as sequências mais do necessário com o provável intuito de encher metragem.

  • A favor: Fotografia.
  • Em contra: Sobra metragem.
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