Dois filmes brasileiros

Mais terror do que isto, vai ser difícil.

Stephen King sugeriu alguma vez que o terror age como barómetro daquelas questões que nos preocupam como sociedade. Neste senso, o género no Brasil não é alheio ao entorno social no que é produzido.
Desde o sadismo durante a ditadura militar exprimido nos filmes do Zé do Caixão, até a concepção maniqueísta, reaccionária e evangélica do recente Mal Nosso, a passar pelas angústias da classe meia em período de crise no Trabalhar Cansa; o terror brasileiro emprega os materiais do seu tempo histórico. Aqui falar-se-á brevemente de duas recomendações que sintetizam algumas inquietações do Brasil contemporâneo e que avançam, dalgum modo, as infelizes e recentes mudanças políticas. Mais concretamente, O Animal Cordial de Gabriela Amaral e O Clube dos Canibais de Guto Parente exprimem, duma maneira não demasiado subtil, o temor à classe dominante num país de fortes desigualdades sociais.

O “sofrido” pequeno empresário e a trabalhadora exemplar.

O primeiro, um pouco na linha de Cani Arrabbiati, centra o seu enredo num número de personagens limitado, em confinamento e enfrentados. Assistimos à hora de feche num restaurante onde a precariedade e a exploração são mostrados de forma naturalista. Na espera dos últimos clientes saírem, o dono e o quadro de pessoal são surpreendidos por uns assaltantes. Quando achamos que são os recém-chegados a principal ameaça para o aforo do local, o assalto mostra-se como o incidente propício para que emerja o dono como antagonista natural; disposto a passar por cima de qualquer coisa, com tal de manter vivo o seu negócio. A alegoria social é evidente e a história sustenta-se numas interpretações sólidas.

Não há quem ganhe à burguesia em matéria de parafilias esquisitas.

Mas se em O Animal Cordial sugere-se um elemento de canibalismo, em O Clube dos Canibais é o seu motivo central. No filme de Guto Parente, uma classe dominante patrioteira, conservadora e degenerada convive num clube selecto e segredo. Desde uma dupla moral satírica, entregam-se em privado a orgias que incluem o sexo com os seus subalternos e a sua posterior canibalização. Um pouco na linha do subversivo Society de Yuzna, mas sem o elemento sobrenatural ou um protagonista empático.
Será preciso ficar atentos às interessantes propostas que chegam desde o outro lado do oceano nestes tempos sinistros.

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