As sinistras histórias sobre o conformismo

O filme quase antologia, realizado por André Øvredal e produzido por Guillermo del Toro, Scary Stories to Tell in the Dark, não pode evitar deixar um certo gosto amargo na sua conclusão devido a uma mistura de motivos narrativos e ideológicos; o que equivale a dizer que esteve perto de ser bem sucedido em ambos.

Scary Stories to Tell in the Dark narra as desventuras da adolescente e autora de terror amadora Stella (Zoe Colletti) quem, a fugir com os seus amigos dum bully local, acaba por refugiar-se com eles e com o recém-chegado Ramón (Michael Garza) na mansão Bellows; casa presumivelmente assombrada onde habita o fantasma de Sarah, vítima dumha injustiça passada e que se diz mata as crianças com histórias de terror. Desde que levam um caderno de Sarah Bellows, podem testemunhar que a lenda é certa quando novos relatos de terror se imprimem de modo mágico nele. Os relatos envolvem os conhecidos de Stella, que acabam por morrer na ficção e na realidade.

No plano narrativo, Scary Stories to Tell in the Dark tem a favor o charme duma aventura juvenil, formato que a nostalgia faz atractivo e que a liga a outras produções recentes que seguem a esteira do cada vez mais errático Stranger Things. Porém, e outro argumento ao seu favor, o filme não faz concessões à largura da sua audiência potencial. As histórias que recolhe são verdadeiramente sinistras: o espantalho, o monstro do pé, a dama pálida, o homem estridente ou, especialmente, as aranhas subcutâneas, são verdadeiramente chocantes. Então, qual é o problema? Dá a sensação que nenhuma dessas histórias é plenamente desenvolvida, ficando apenas como scketches macabros isolados, ou vagamente ligados pela linha narrativa menos interessante.


Mas não é o seu único problema: Scary Stories to Tell in the Dark está ambientado em 1968, com a guerra do Vietname no seu maior, a próxima eleição de Nixon como presidente e as tensões raciais. Tudo está presente no enredo, mas não da melhor maneira. Se a guerra é uma atrocidade, a perspectiva dum governo conservador é sombria e a discriminação das minorias uma injusta evidência; a moral que se deduz da história de Sarah Bellows é que, mesmo assim, deve evitar-se a violência. Vítima de opressão e injustiça, o fantasma de Sarah acaba por igualar-se eticamente aos seus carrascos quando a sua vingança alcança pessoas inocentes como os amigos de Stella.


Evitarei o spoiler, mas o desfecho reforça a conclusão conformista disfarçada dum presumível pacifismo liberal: o racismo perdura, os efeitos da passada opressão estrutural prolongam-se, os objectores de consciência irão morrer na guerra. Todos devem esperar pacientemente a que as coisas mudem sozinhas, o que é uma mensagem bastante lamentável para transmitir a qualquer subalterno. Neste senso, o sub-texto não é muito distante de Ma, do que tenho falado aqui em termos semelhantes. Num período de confrontação ideológica também no campo cultural norte-americano, ambas produções representam uma linha preocupante e hipócrita: o amável convite que se dá aos oprimidos para resignar-se.

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