Cam

Por se alguém não sabia, a pornografia não é cool.

Esta passada semana, estreou-se na plataforma provedora de filmes e séries Netflix, a longa-metragem debute do realizador Daniel Goldhaber e da guionista Isa Mazzei: Cam.
Cam emprega a clássica história do Doppelgänger, transladando-a ao mundo da pornografia digital para exprimir certas angústias contemporâneas relativas à identidade na rede. Assim, Alice (Madeline Brewer) é uma actriz erótica que faz shows ao vivo desde a sua casa. Ela tem uns limites precisos sobre a separação entre o trabalho e a sua vida privada. No seu âmbito profissional, os clientes sugerem coisas para Alice e pagam online para a convencer. Na medida em que satisfaça as fantasias do seu público, vai escalando num sistema de ranking de competição com outras colegas.

Madeline Brewer realiza uma actuação convincente.

A primeira metade oferece um retrato sórdido da pornografia, ressaltando a objectificação das mulheres e as fantasias masculinas de domínio e violência. Isto não desanima particularmente à protagonista, quem se nos mostra como uma pessoa ambiciosa e comprometida com destacar no seu campo. Mas então o conflito emerge: existe uma réplica de si própria que se apodera da sua conta de internet e que a começa a substituir nos seus shows. Incapaz de recuperar o seu trabalho, Alice vê como a dupla transgride as suas normas e ameaça com destruir a sua reputação e vida pessoal.

A Alice real contra a Alice do outro lado da tela.

Então Cam é que nos mostra uma visão ligada ao pessimismo tecnológico e à perda da própria imagem no mundo virtual. Uma visão que vincula este filme a outras obras como a série Black Mirror; especificamente a capítulos como Nosedive ou o genial Be Right Back. Contudo, não acaba por ter o mesmo dramatismo que o anterior. É de prever que não vai ser memorável, embora seja um filme entretido e desfrutável.
Brewer está razoavelmente bem e uma fotografia cuidada redondeia um debute de interesse.

  • A favor: mensagem relevante.
  • Em contra: falta-lhe algo de peso dramático.
This entry was posted in Crítica and tagged , , . Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*