Chucky e o 5G

Poder-se-ia qualificar de “frio” o acolhimento que teve a revisão de Child’s Play feita por Lars Klevberg na direção e Tyler Burton Smith na escrita. Certamente, não acordou a simpatia do já clássico de Tom Holland. E contudo, o moderno Chucky não carece de méritos.

Ambos partem dum conceito um bocadinho absurdo: um boneco assassino. O próprio Holland chegou a reconhecer, embora conseguisse elevar o brinquedo a ícone pop, inaugurando uma dessas extensas e infelizmente frequentes sagas no género de terror. Em grande medida, graças a uma atitude malandra. Originalmente, a história de Don Mancini pretendia uma reflexão sobre o consumismo e considerava Chucky como a representação das tendências agressivas de Andy. A ambiguidade sobre a autoria real dos assassinatos ocultava um comentário sobre os efeitos da publicidade televisiva nas crianças. Isso tudo foi deitado no lixo para simplificar o relato: Karen leva para o seu filho Andy um boneco aonde o assassino Charles Lee Ray tem transferido a sua alma mediante o vodu instantes antes de morrer. Sucesso.

O novo Chucky não tem o charme do original. Também este Child’s Play não é um simples remake. É um reboot: o ponto de partida é diferente, mais ligado à nossa época de crescente conflito comercial entre os EUA e a China, onde este último país parece avançar tecnologicamente ao seu rival.
No filme de 2019 não existe mais Charles Lee Ray. O boneco é criado pela multinacional Kaslan Corporation. Não nos EUA, senão no antigo inimigo, o Vietname, por um trabalhador altamente qualificado mas extremamente precário. Antes de perder o seu emprego, o nosso proletário asiático vinga-se dos malditos yankees programando o boneco para ser um monstro. Qual é problema que tem o velho filme e que resolve o novo? O de Tom Holland não se ocupava com a pouco verosimilhante superioridade do boneco a respeito dos humanos adultos. O Chucky de Klevberg, por outro lado, tem a vantagem de estar ligado pela rede ao resto dos aparelhos tecnológicos que intervêm no quotidiano; pelo que, eventualmente, esse produto asiático tomará o controlo de tudo.

É assim que o boneco chega às mãos duma precária Karen (Aubrey Plaza), membro dessa classe trabalhadora norte-americana desligada da indústria, subempregada em grandes corporações de distribuição do género Walmart. Incapaz de fornecer certa estabilidade ao seu filho Andy (Gabriel Bateman), leva-lhe como presente, do centro comercial onde trabalha, o defeituoso boneco sabotado no Vietname.

Privado das suas limitações éticas (democráticas) e a aprender violência do visionado de Texas Chainsaw Massacre II, ao qual assiste com Andy e os seus vizinhos, Chucky desenvolve agressivamente o ressentimento de classe do puto face os símbolos da pequena-burguesia local acomodada (Shane), antes de atacar a autoridade (Mike e a sua mãe) e finalmente todo o mundo.

Essa angústia nacional subliminal é possível graças à combinação com outro elemento bastante comum na ficção contemporânea: a visão negativa do impacto das novas tecnologias no nosso quotidiano. Esta leitura, no fundo reacionária, liga este Child’s Play a outras produções do tipo Black Mirror. A cena final incide no carácter estrutural do mal que ameaça o ainda assim duvidoso modo de vida (norte)americano.
Por último, se desculparmos um final bastante precipitado e pouco cuidadoso, poderemos desfrutar dum entretido filme de terror que não renuncia totalmente à comédia, que conecta com certo revival de aventura juvenil na moda (Stranger Things) e que até introduz alguma dose de gore pouco esperada. Está longe de ser das piores revisões de clássicos.

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