Der Goldene Handschuh e o romanticismo do passado

O fenómeno é conhecido: um bairro degradado onde pouco a pouco se instalam artistas. Não demoram a aparecer negócios associados a esta presença. A renda dos alugueres sobe. A população autóctone diminui e chegam novos moradores dum nível sócio-económico mais elevado. No final do processo o bairro perdeu o seu carácter específico e é quase irreconhecível para os que sempre viveram nele.


Certamente, a gentrificação tem um aspecto claramente dramático, relativo às ligações sociais que acolhe, que geram lealdades e que se perdem com as mudanças. Isto provoca uma vaga idealização do passado distrital, com as suas pequenas lojas e os vizinhos a cumprimentar-se pelo nome. E uma idealização comporta sempre alguma falsificação. Porque as representações bucólicas do passado costumam esquecer que as nossas caras vizinhanças também foram lugares para a exploração.


Der Goldene Handschuh (2019), esquisitice na carreira de Fatih Akin, passeia pelas ruas do bairro de Sankt Pauli, antes que fosse destino turístico, que a equipa local virasse um ícone das torcidas de esquerda ou uma referência no movimento autónomo e squatter. O St. Pauli que mostra Akin a adaptar as páginas da novela de Heinz Strunk nada tem a ver com o bairro que fora incluído por The Guardian entre os 5 melhores lugares para morar neste planeta. Entre os seus bares sujos perambulam todo género de personagens singulares: ex-oficiais nazistas, deficientes, prostitutas, alcoólicos, vagabundos… O que conhecemos como lumpemproletariado.


A paisagem em Der Goldene Handschuh massacra todo romanticismo local. O enredo segue os passos do assassino real Fritz Honka (Jonas Dassler), rodeado de imundice e fisicamente repulsivo, quase como um reflexo da sua depravação moral. Honka estabelece relações abusivas com as mulheres, o que para muitas implicará morrer assassinadas na nojenta habitação do seu verdugo; quem ignorando o processo natural de descomposição dos cadáveres oculta restos das vítimas por todo o apartamento. Quando as eventuais visitas reparam no cheiro nauseabundo, uma simples acusação aos vizinhos, imigrantes gregos, dissipa qualquer suspeita. Ninguém se pergunta realmente pelas prostitutas desaparecidas. Ninguém as procura.
Este componente dramático é o que nos retém na tela, a necessidade que se faça justiça. Porque Honka não pode reclamar para si qualquer simpatia. Não existe algum elemento para a humanização como em Henry: Portrait of a Serial Killer, ou como nas menos realistas Dexter ou Bloodline. Nem sentimos pena quando, depois dum duro acidente, intenta redimir-se através do trabalho e a sobriedade para fracassar de modo miserável. Honka é um idiota moral, filho directo do seu entorno degradado.
Por esse entorno, como uma brincadeira do filme, os jovens Willi (Tristan Göbel) e Petra (Greta Sophie Schmidt) adentram-se como a empreender a prática dum turismo social obsceno, totalmente alheio aos problemas do bairro. Embora o bairro esteja destinado a ser seu, este rechaça-os ainda.


Der Goldene Handschuh é mais interessante como retrato histórico e social, que como enredo meritório. E, seja como for, apesar de não estar carente de valores cinematográficos, a crueza e o naturalismo com o que se trata a violência contra as mulheres faz que não seja um filme recomendável.

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