O progresso e a ameaça

Meteram-se com o tetraplégico errado…

Na ficção científica, tradicionalmente, existe uma tensão entre dois relatos contrapostos sobre a tecnologia: um optimista que afirma as possibilidades do progresso científico na elevação das condições de vida do ser humano, e outro que adverte sobre a ameaça que a crescente complexidade tecnológica supõe para a liberdade deste.
Esta moeda corrente no género, também existe na produção australiana Upgrade; escrita e dirigida pelo multifacetado Leigh Whannell, quem tem uma dilatada trajectória em fitas de terror como guionista, actor e também realizador (The Jisgaw Files, Insidious 3).

Não tomem demasiado carinho à gaja…

De facto, Upgrade apresenta já Grey Trace (Logan Marshall-Green), um tecnófobo outsider que prefere o trabalho manual numa sociedade futura altamente desenvolvida onde impera a domótica e as viaturas dirigem sozinhas. No primeiro acto vemos a sua relação com a mulher Asha Trace (Melanie Vallejo) e as suas discussões sobre a inteligência artificial; nas que em cada máquina, Grey vê «dez operários no desemprego».

A detective Cortez (Betty Gabriel) parece ser a única em duvidar da deficiência de Grey.

O filme entra então numa fase muito interessante de ambiguidade valorativa sobre o assunto, a partir dum incidente no que o sistema do carro de ambos falha e o casal e assaltado por uma gangue num bairro periférico e deprimido. No assalto, Asha é assassinada e Grey fica tetraplégico. Sem ganas de viver, Grey encontra uma solução para o seu estado na implantação do chip Stem, ofertado por um amigo seu científico (Steve Danielsen). Stem não só devolve a mobilidade ao nosso protagonista, como também assessora este na pesquisa dos responsáveis da morte de Asha e a desejada vingança, uma vez que a polícia parece incapaz de resolver o caso. Ainda mais: em situações de claro risco, Grey pode conceder o controlo do seu corpo ao chip, o que lhe permite lutar de maneira magistral e agir com habilidade face os diferentes perigos que se apresentam.
Mas claro, ao fim e ao cabo, a sombra da mensagem conservadora acerca do processo tecnológico paira sobre a narração. Serão todo vantagens ou estará Grey a outorgar demasiado poder sobre si a Stem? Para além da eventual discrepância sobre o resultado deste dilema, Upgrade acerta em manter esse nível de suspense habilmente envolvido numa acção trepidante e num mistério que se revela mais profundo do que parecia no início.

Stem está muito bem, mas nem tudo é assim tão bom.

Todo funciona relativamente bem neste filme que oferece uns bons 100 minutos de entretenimento e que se candidata como um dos melhores no próximo Festival de Sitges. Uma das recomendações do ano.

  • A favor: Filme entretido e dinâmico.
  • Em contra: Há um elemento de exageração na trama do assassinato de Asha.
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