Os mutantes nazis poucas vezes foram tão chatos

Para quando acontece isto, alguns já dormem.

Resulta cansativa a tradicional banalização da história europeia operada pela cinematografia norte-americana; de modo particular, nos seus episódios mais trágicos. Principalmente, esta vem impregnada desse cheirinho a chauvinismo tão habitual naquelas latitudes, embora não seja exclusivo de lá.
Oxalá fosse o único problema com Overlord, enésima bosta dourada produzida por J.J. Abrams, para deleite dos paladares menos exigentes e que chegara à tela na próxima semana. Alguém deveria viajar ao passado e evitar o seu nascimento ou, no mínimo, convence-lo de que não engane o pessoal.

A metade do longo filme é do género bélico, e não do bom.

Inicialmente planificado como quarta sequência da saga Cloverfield, apresentado no final como uma história independente; o filme começa deixando claro que os actores, mesmo os principais, são todos figurantes nesse espectáculo pirotécnico no que Overlord converte o desembarco de Normandia. A totalidade do “mérito”, entre aspas, é do CGI; com o que Avery, Abrams, Weber e os guionistas, pretendem poupar a chatice de desenvolver uma história.

Aqui, a banalizar a tortura.

É capaz que entre os admiradores disto, que existem a julgar pelas críticas positivas que já colectou, surja uma objecção às linhas anteriores no sentido de destacar que Overlord é um divertimento pulp, que não se pode exigir um rigor histórico ou uma narração “séria” a uma fita deste género. Ao fim e ao cabo, estamos face uma esquadra yankee isolada no norte da França que tem a missão suicida de derrubar uma torre de comunicações alemã. Ali, numa vila francesa ocupada, descobrem como os nazis fazem experimentos para conseguirem soldados mutantes praticamente indestrutíveis.

O cinema exploitation deve ser valorizado nos seus próprios termos. Argumentos semelhantes, ou mesmo mais ridículos, deram em produções que no mínimo possuíam o charme da pobreza de meios. Overlord, não. Overlord é um absoluto desperdício de recursos milionários na ideia de que tratar a plateia como idiota é algo extremamente rendível. E é, graças a uma potente campanha de marketing que inclui uma crítica laudatória e mercenária. Será esquisito que fãs da série B curtam da interminável parte bélica, e parece bastante possível que achem pouco transgressivo o diminuto desfecho de terror. De certeza, ouvirão-se ronquidos na sala no entreacto pretensamente dramático.

E finalmente… bah, todo o mundo está nas tintas já.

Overlord nem divertida é. Sim é muito de barras e estrelas, de ignorar o racismo estrutural estadunidense mesmo tendo um protagonista afro-americano, ou de tratar as mulheres como simples elemento decorativo: mocinhas de sotaque exótico que precisam do auxílio do sétimo da cavalaria. Lixo.

  • A favor: os cartazes promocionais. Fundamentalmente, este de aqui acima.
  • Em contra: com esta premissa nem consegue ser entretido.
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