Terrores sociais

Dawn of the Dead (1978)

Com motivo da morte de Toobe Hoper ou George A. Romero, destacamos a estreita relação que sempre existiu entre a ficção de terror e o comentário social (na saga dos zumbis de Romero, ou em certa leitura de The Texas Chainsaw Massacre). Também aludimos a esta relação quando tocou matizar os méritos de Get Out ou do chamado pós-terror.

Não se pretende aqui fazer uma lista extensiva daqueles filmes que possuem diversas capas de leitura, algumas delas a interrogar directamente a sociedade do seu tempo. Mas a efeméride do centenário da revolução de Outubro, bem merece destacar algumas recomendações neste sentido; exemplos dum cinema onde o terror emana das contradições do capitalismo e das ideologias a ele associadas:

The Stepford Wives (1975)

Não confundir com o desastroso remake de 2004. Esta adaptação da novela de Ira Levin segue Joanna Eberhart (Katharine Ross), uma mulher da sua época, moderna e com inquietudes; que se traslada com o seu marido Walter (Peter Masterson) à pequena vila de Stepford, em Connecticut. Ali apenas conecta com outra recém chegada, Bobbie Markowe (Paula Prentiss); já que as mulheres locais exibem um comportamento totalmente submisso aos seus parceiros. Naturalmente, o motivo desta subalternidade é mais obscuro do que Joanna e Bobbie suspeitam inicialmente. A sua pesquisa é uma história com um subtexto feminista bastante inteligente.

They Live (1988)

Grande clássico de John Carpenter, amplamente conhecido, que ao igual que Society (vid. Infra) empreende uma crítica do capitalismo mediante a desumanização da burguesia. Aqui, o operário Nada (Roddy Piper) descobre uns óculos de sol especiais que lhe permitem ver uma realidade imperceptível para os humanos: absolutamente todas as plataformas da cidade contêm mensagens subliminais chamando à obediência e ao conformismo. Além disso, a classe trabalhadora está a ser explorada por alienígenas. Esta revelação situa-o em risco face a hostilidade dos dominantes e a incredulidade dos dominados.

Society (1989)

Obra prima de Brian Yuzna e talvez o melhor da sua filmografia. Nela narra as desventuras de Bill Whitney (Billy Warlock), jovem filho da burguesia californiana que sente uma crescente alienação do seu entorno familiar. Suspeita que os seus parentes e até a sua namorada, não são quem dizem ser. E evidentemente tem razão: a família Whitney são uma espécie de repugnantes reptilianos antropófagos que devoram os subalternos em desagradáveis orgias. Muito ligado com They Live, Yuzna oferece gore a mãos-cheias numa explícita denúncia da classe dominante durante os anos da revolução conservadora nos EUA.

維多利亞壹號 (Dream Home, 2010)

Maravilhosa esquisitice gore Hong-konesa, filme muito divertido e selvagem que está informado pela borbulha imobiliária desastrosa que nos levou à ruína. Seguimos os passos de Cheng Lai Sheung (Josie Ho) num particular e cruel percurso criminoso. Trabalhadora precária em serviços de atenção telefónica, Cheng assassina sem piedade a vizinhança dum enorme prédio. Em diversos flashbacks, assistimos à infância da protagonista, período que contém o segredo das suas motivações. Cheng pertence a essa parte da população deslocada dramaticamente pela gentrificação urbana do seu velho bairro portuário. Decidida a adquirir um dos apartamentos construídos no seu antigo bairro, mas constrangida pela escassez de recursos financeiros; Cheng empreende uma singular desvalorização dos imóveis a base de sangue e vísceras. Muito recomendável.

The Woman (2011)

Em The Woman, o realizador Lucky McKee oferece uma sequência de Offspring, ambos baseados em textos do escritor Jack Ketchum. O pai de família de classe média Chris Cleek (Sean Bridgers) sai de caça a uma floresta próxima da sua morada. Ali, encontra uma mulher selvagem criada por lobos, sobrevivente duma tribo de canibais (Pollyanna McIntosh). Apesar do risco que supõe, Chris decide dar caça à mulher e leva-la cativa para a sua morada, onde todos os membros da família devem assumir a responsabilidade do cuidado. Quando pensamos que é a mulher selvagem a destinada para ser a vilã do filme, revela-se-nos que em realidade o antagonista é o sistema patriarcal encarnado aqui nos homens da narração e no colaboracionismo da mãe (magistralmente interpretada por Angela Bettis). Inteligente e divertida alegoria sangrenta que surpreende com vários giros inesperados de guião.

It Follows (2014)

O realizador David Robert Mitchell, quem vinha de dirigir um drama teeneger totalmente esquecível (The Myth of the American Sleepover); surpreende com este filme que é já um autêntico clássico do cinema de terror e que merece uma entrada específica aqui. E é um clássico tanto na imitação do estilo carpenteriano, como na originalidade da trama. Nela, a jovem Jay (Maika Monroe) namora com um gajo bonito com o que mantém uma relação sexual. Sem ela saber, o seu partenaire está a transmitir-lhe uma maldição: a partir dessa altura, será perseguida por uma misteriosa entidade, apenas visível para Jay e que pode adoptar qualquer forma humana. Embora esta entidade avance devagar, o seu passo é constante e o encontro com ela, mortal. A morte da pessoa amaldiçoada implica que a entidade persiga o anterior portador. Assim, a única saída de Jay é manter relações com outra pessoa para “passar” a maldição dela ao desventurado amante.
Se It Follows pode ser visto como uma metáfora do medo à morte, ao sexo ou às DTS; a realidade é que também possui um interessante subtexto sobre a devastação social de Detroit durante a crise vigente. Este subtexto é muito mais explícito no guião do que no próprio filme. Contudo, o grupo de amigos de Jay procuram uma solução à ameaça entre casas abandonadas pelos despejos, atravessando uma paisagem urbana na que já não existem fronteiras de classe pela depauperação dos sectores intermédios. Um grupo composto por jovens sem perspectivas claras de futuro, abandonados à sua sorte por umas gerações anteriores virtualmente ausentes ou ineficazes.
Este vídeo de Digging Deeper explica-o melhor:

 

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